No dia seguinte à maior escalada em um mês, o petróleo fez algo revelador: quase nada. O Brent se manteve perto de US$ 78 na quinta-feira, alguns centavos acima após o salto de 5,2% da quarta, com o contrato de mês próximo em torno de US$ 77,50. O WTI ficou perto de US$ 73,50. Os preços que saltaram com a notícia dos ataques de EUA e Irã não subiram mais quando o fogo se estendeu a um segundo dia. O mercado já precificou o risco. Agora espera para ver se o risco se torna real.
Essa espera tem uma única variável, e todo operador a conhece: por quanto tempo o Estreito de Ormuz segue interrompido. Um susto de uma semana é um repique. Um fechamento de um mês é um preço completamente diferente.
Dois Preços, Uma Pergunta
A divisão entre analistas é incomumente clara. O Goldman Sachs diz que, se Ormuz continuar em boa parte fechado por mais um mês, além do fim de julho, o Brent fica em média acima de US$ 100 no resto de 2026. O JPMorgan alerta que o pico de curto prazo pode ser violento, de US$ 120 a US$ 130 por barril, com um exagero rumo a US$ 150 se as interrupções se arrastarem. Os dois bancos também acham que o mercado tem excesso de oferta por baixo do medo. O Goldman ainda prevê um excesso em 2027 e um Brent de volta a cerca de US$ 75.
Assim, as mesmas mesas que alertam para US$ 130 também alertam para US$ 75, e a distância entre esses números depende inteiramente do estreito. A US$ 78, o mercado não aposta num fechamento sustentado. Aposta em mais um episódio contido, do tipo que limitou cada alta desde a primavera. Essa aposta pode se revelar errada já na sexta.
Trump Aumenta a Aposta
O presidente Trump passou quarta e quinta ampliando a ameaça. Declarou encerrada a trégua de junho, alertou para mais ação militar e levantou a ideia de um bloqueio naval ao Irã. O mais relevante para o mercado de petróleo, disse que futuros ataques poderiam ter como alvo a Ilha de Kharg, o terminal que movimenta a grande maioria das exportações de petróleo do Irã. Atingir Kharg não apenas interromperia o trânsito por Ormuz. Retiraria os barris iranianos do mercado na fonte, somando-se às sanções que o Tesouro dos EUA reimpôs nesta semana ao retirar a isenção de venda de petróleo do Irã.
O Irã, por sua vez, reivindicou uma "resposta esmagadora". A Guarda Revolucionária disse ter atingido 85 alvos dos EUA no Bahrein e no Kuwait, citando o quartel-general da Quinta Frota e uma base aérea kuwaitiana, e afirmou ter derrubado um drone americano. Esse número é uma alegação iraniana e segue não verificado. O que está confirmado é mais restrito e ainda assim sério: sirenes antiaéreas e defesas aéreas ativas sobre o Bahrein e o Kuwait, avisos de abrigo aos moradores, e um segundo dia seguido de ataques dos EUA que o CENTCOM agora contabiliza em cerca de 90 alvos. Nenhuma vítima americana foi confirmada.
O próprio Ormuz está preso numa guerra de narrativas. O Irã voltou a declarar o estreito fechado. Os EUA dizem que os navios ainda transitam. Os rastreadores de embarcações mostram o tráfego em forte queda e os prêmios de seguro de risco de guerra em alta, embora os números precisos venham de agregadores de crise, e não dos grandes registros de navegação, e devam ser lidos como orientativos. O resumo honesto é que os fluxos estão prejudicados e o custo de mover um barril pelo estreito saltou, mas a via não está totalmente selada.
Os Barris Dizem Outra Coisa
Sob a geopolítica, os dados semanais de estoques dos EUA puxaram para o outro lado. A Administração de Informação de Energia informou que os estoques de petróleo subiram 3 milhões de barris na semana passada, o primeiro aumento em onze semanas, enquanto as exportações dos EUA caíram ao menor nível desde novembro. Um aumento de petróleo é um sinal de baixa, e pressionou brevemente os preços mesmo com os mísseis voando.
O lado dos derivados estava mais apertado. Os estoques de gasolina caíram quase 2 milhões de barris ao menor nível sazonal em anos, e os estoques de destilados recuaram 5 milhões de barris a uma mínima de quatro anos às portas do pico de demanda do verão. Essa é a tensão em um único relatório: petróleo de sobra, combustível refinado de menos. É também por que uma narrativa de excesso e preços firmes na bomba podem coexistir.
Um Sepultamento, e uma Ausência
A quinta-feira também trouxe o fim de uma semana de luto oficial. Ali Khamenei foi sepultado no santuário do Imam Reza, em Mashhad, encerrando a procissão fúnebre que começou em Teerã. Seu presumível sucessor, Mojtaba Khamenei, não apareceu. Autoridades iranianas disseram à imprensa que ele foi mantido afastado por temor de ser rastreado e atacado, e que ficou ferido no ataque de fevereiro que matou seu pai. Uma sucessão indefinida no topo do Estado iraniano não é um pano de fundo estabilizador para uma crise que agora depende do próximo movimento de Teerã.
Para o preço do petróleo, a história se reduziu a uma única pergunta com uma ampla faixa de respostas. Se Ormuz reabrir e os ataques se dissiparem, o excesso se reafirma e o Brent desliza de volta rumo aos US$ 70 baixos. Se o estreito seguir fechado até agosto, ou Kharg pegar fogo, o prêmio de guerra que o mercado insiste em não pagar vem cobrado de uma só vez. A US$ 78, o petróleo está em cima do muro. Não vai ficar ali por muito tempo.
Este artigo é apenas para fins informativos e não constitui aconselhamento financeiro ou de investimento. As condições do mercado de petróleo podem mudar rapidamente. Consulte um profissional financeiro qualificado antes de tomar decisões de investimento.