O prêmio de guerra parou de apenas recuperar terreno e rompeu para cima. O petróleo Brent saltou acima de US$ 86 por barril na terça-feira e o WTI superou US$ 80 pela primeira vez em um mês, cada um com alta de cerca de 4% no dia e mais de 10% desde sexta-feira. Duas coisas impulsionaram o movimento: o Irã executou o primeiro ataque letal a petroleiros nesta fase do conflito, e o presidente Trump agiu para assumir o controle do Estreito de Ormuz e cobrar do mundo pelo seu uso.
Este é um patamar mais forte do que o mercado pagou o mês inteiro. Ainda assim, não é a explosão que um verdadeiro choque de oferta traria, porque o único ataque capaz de provocar esse choque, um golpe no terminal de exportação da Ilha de Kharg, no Irã, ainda não veio.
O Primeiro Ataque Fatal a Petroleiros
Durante a madrugada, mísseis de cruzeiro iranianos atingiram dois petroleiros ligados à ADNOC, a estatal de petróleo dos Emirados Árabes Unidos, enquanto se moviam pela via sul de Ormuz, dentro de águas de Omã. A empresa identificou as embarcações como os VLCCs Al Bahyah e Mombasa B, ambos grandes cargueiros de petróleo bruto. Um tripulante indiano foi morto e oito ficaram feridos, quatro em estado grave, e ambos os navios sofreram danos significativos, segundo a ADNOC e o ministério da defesa dos Emirados.
A Guarda Revolucionária assumiu a responsabilidade, dizendo que os petroleiros haviam ignorado alertas e tentado passar por uma rota minada. Essa justificativa é a versão do Irã e não foi verificada de forma independente. O que está confirmado, e o que importa para o mercado, é que pela primeira vez nesta fase o alvo foram petroleiros de bruto, e não um navio porta-contêineres, e que um ataque no estreito já matou um marinheiro. A ameaça ao transporte marítimo não é mais teórica.
Trump Age para Cobrar Pedágio no Estreito
O segundo fator foi uma mudança de política sem precedente recente. Trump declarou que os Estados Unidos atuariam como guardiões de Ormuz, reinstaurou um bloqueio naval a embarcações iranianas que atravessam o estreito, em vigor a partir da tarde de terça-feira, e disse que toda a demais carga que passasse por ali estaria sujeita a uma cobrança de 20% sobre o seu valor, para reembolsar os EUA por proteger a via marítima. Ele nomeou Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Bahrein e Kuwait como os beneficiários que deveriam pagar.
A Bloomberg calculou que uma taxa de 20% implicaria cerca de US$ 30 milhões em um superpetroleiro cheio de bruto. Se ela pode de fato ser cobrada é uma questão em aberto, mas o mercado não esperou para descobrir. Um pedágio no ponto de estrangulamento de petróleo mais importante do mundo é um novo custo direto sobre cada barril que passa por ali, e ele se soma a um seguro de risco de guerra já elevado. Trump, na prática, tirou uma página do próprio manual do Irã, transformando o controle do estreito em vantagem e receita.
O Ataque que Ainda Não Veio
Apesar de tudo isso, o verdadeiro pior cenário do mercado segue não concretizado. Os EUA bombardearam o Irã por uma terceira noite consecutiva, atingindo alvos militares e navais em Bushehr, Chah Bahar, Jask, Konarak, Abu Musa e Bandar Abbas, locais ligados à capacidade do Irã de atacar navios. Nenhum deles foi a Ilha de Kharg, o terminal que responde por cerca de 90% das exportações de bruto do Irã, e nenhuma infraestrutura de exportação de petróleo iraniana foi destruída.
É por isso que US$ 86 não são US$ 110. Um bloqueio, um pedágio e ataques a petroleiros elevam todos o custo e o perigo de mover petróleo por Ormuz. Um golpe em Kharg removeria barris iranianos na fonte. O mercado está precificando uma rota mais perigosa, não a perda do petróleo em si, e a diferença entre esses dois cenários é aproximadamente a diferença entre o preço de hoje e o pico da guerra.
O Excesso de Oferta Ainda Limita o Movimento
A outra razão pela qual o prêmio tem um teto permanece inalterada. O mercado físico está com oferta excessiva. A Administração de Informação de Energia ainda modela o Brent com média próxima de US$ 70 no quarto trimestre diante de um grande acúmulo esperado de estoques, a OPEP+ está adicionando barris pelo quinto mês seguido, e a Saudi Aramco cortou seu preço de venda para a Ásia no maior valor em décadas. Esse superávit estrutural é a razão pela qual os analistas mantêm vivo um cenário de baixa mesmo agora.
A comunidade de analistas inclinou seu risco para cima. O Goldman Sachs afirma que, se Ormuz não normalizar até o fim de julho, o Brent provavelmente encerra 2026 acima de US$ 100, com uma trajetória adversa chegando a US$ 125. O JPMorgan vê cerca de US$ 86 neste trimestre recuando para US$ 80. O TD Securities considera "bem possível" um movimento até US$ 100 se os riscos de escassez física se mostrarem reais. O fio condutor: a cauda agora é um cenário vivo, não remoto.
O que Observar
O trânsito por Ormuz despencou para uma fração do normal, com apenas 57 travessias na janela de sexta a domingo, contra uma norma de tempos de paz próxima de 130 por dia. Os EUA mantiveram cerca de 8,5 milhões de barris em movimento na segunda-feira com escolta militar. A diplomacia está travada: o Catar e o Paquistão pressionam para retomar as conversas e o chanceler do Irã tem circulado por Omã, mas três noites seguidas de ataques deixaram o arcabouço de junho em pedaços, sem cessar-fogo e sem nenhuma nova rodada confirmada.
O próximo movimento depende da mesma lista curta. Se Kharg for atingida, o cenário de US$ 100 ou mais do Goldman entra em cena em um dia. Se o bloqueio e o pedágio de fato estrangularem ainda mais o trânsito, o aperto faz o trabalho que um ataque não fez. E se os mediadores conseguirem um cessar-fogo, o excesso de oferta está à espera para puxar os preços de volta para a faixa dos US$ 70. Por enquanto, o petróleo rompeu para cima, mas os barris ainda estão fluindo, e essa é a única razão pela qual ele não rompeu ainda mais.
Este artigo é apenas para fins informativos e não constitui aconselhamento financeiro ou de investimento. As condições do mercado de petróleo podem mudar rapidamente. Consulte um profissional financeiro qualificado antes de tomar decisões de investimento.